Café e destino

Tenho em casa já há algum tempo um café grego. É grego mesmo, trazido por uma amiga grega, que comprou na Grécia. Mas esse tipo de café é chamado também de café turco ou café árabe. Dependendo do lugar onde você estiver, é importante distinguir os nomes. Não faça como eu que estava na Grécia e pedi um café turco.  O senhor que me atendia ficou me olhando, fingiu que não sabia do que estava falando, deve ter dito algo indelicado em grego e perguntou “greek coffee?”. A guerra greco-turca já acabou e eu ali, quase causando incidente.

Ainda que o café turco – Turk Kahvesi – tenha sido declarado Patrimônio da Humanidade e Bem Imaterial da Unesco, para os fins deste post o café vai ser chamado de café árabe.

Eu tinha em casa, mas nem lembrava em fazer. Até que minha amiga alemã ganhou um pacote de café árabe com instruções para leitura da borra. Pera aí, leitura da borra de café??? Sim, mas vamos por partes.

 

Diferencial do café árabe

O café árabe tem um preparo especial, único. E faz sucesso há cerca de cinco séculos. Ele não é coado e é feito em uma vasilha especial, normalmente feita de cobre, chamada de ibrik, em árabe (cezve, em turco e mpriki em grego). A nossa, aqui de casa, compramos em Istambul, no Bazar das Especiarias, mas confesso que não lembrava desse nome até ter parado pra escrever esse post – eu chamava a minha simplesmente de “cafeteira turca”.

Foi lá em Istambul que aprendi a preparar o café, com a camareira da pousada onde ficamos. O dono do local ia traduzindo enquanto ela explicava: uma colher e meia de chá de pó de café, açúcar (normalmente uma colher), para cada xícara de água natural. Coloca tudo na ibrik e leva ao fogo. Mexe sempre, sem deixar ferver, espera formar a espuma. Retira a espuma com a colher e coloca na xícara. “Tamam?” (“tá bom?”, em turco). E eu só respondia, tamam. Tava tudo tamam.

Assim como no café espresso, a espuma no café árabe representa que o café foi bem feito, ou como nos contou o Emrah, o dono da pousada em Istambul, é sinal que a mulher é uma boa cozinheira. O café é servido sempre imediatamente, em xícaras individuais. Aí, você esperar um pouco, para o pó sentar e então, pode tomar seu café.

 

Quando terminar de tomar, no fundo da xícara fica a borra. Duas a três voltinhas na xícara e ‘pluft’ emborca a danada com a borra no pires. Esperar uns minutos e começa a leitura das figuras que se formaram ali. Essa técnica de leitura de borra de café é chamada de cafeomancia. Cá entre nós, minha amiga alemã não é nenhuma vidente, esotérica ou com super poderes. O pacote de café árabe que ela ganhou vinha ainda com umas instruções para ler as figuras.

Juntamos a minha ibrik, com o café árabe trazido pela alemã e um mini-guia de cafeomancia e pronto, achamos a combinação perfeita para uma reunião. Até quem não suporta café tomou. Tudo pela curiosidade de saber o que poderia estar guardado no fundo da xícara.

Quer fazer em casa uma tarde agradável de “café e destino”? Vá em frente! Se não tem uma ibrik, vale improvisar com uma leiteira – ora, ora, por que não?! E o pó do café você tem que comprar a moagem pulverizada, que é uma moagem mais fina. Conhecimento técnico aos interessados: de acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC), existem quatro graus de moagem. O tempo de preparação é influenciado pela moagem, pois numa moagem muito fina, a água levará mais tempo para passar pelo pó, resultando numa extração superior.

Grau de moagem Preparo
Pulverizado Café árabe, onde o pó não é coado
Fina / Média Filtração (filtros de papel, coador de pano)
Média Café espresso
Grossa Percolação – cafeteira italiana

Certa vez essa moagem para vender no café Suplicy. Ah, e não confundir com café solúvel, que não tem nada a ver!

Pronto, prepare seu café árabe e veja que o destino ainda guarda muita coisa boa pra gente! Esse tipo de café é muito bom, mais suave e, normalmente, aromático – temperado com cardamomo. Pra mim, essa história de leitura é uma ótima desculpa para tomar um bom café. Aliás, aqueles dois pacotinhos do café grego que tinha em casa, ainda estão aqui! Em breve, mais tardes com café aqui em casa…

Beijos com aroma de café árabe (=

ps: esse post foi escrito ao som de “Music from the Coffee Lands”, da Putumayo.

Aqui uns links que podem ser bem legais sobre o tema “café e cafeomancia”:

26 Comments Add yours

  1. dedinho diz:

    Olhando para a foto final, diria que vais ficar… com os cabelos em pé por causa de alguma coisa!! Eheh!!!

    1. cathvale diz:

      Hahahahaha, vou ficar com os cabelos em pé por causa da reforma da cozinha – quaaaando ela sair (=

  2. Chris diz:

    Cath, e aí?

    O que a borra do seu café revelou? Contaê!!!! rsss

    Beijos

    1. cathvale diz:

      Menina, disse que eu tenho que ter paciência…. paciência…. mas isso lá era segredo?! rs

  3. Essa borra revelou muitos obstáculos *piada interna*!!!
    kkkkkkkkkkkkkkkk!
    Amo café turco/grego/árabe!!
    bjs

  4. Jeiel diz:

    Minha norinha preferida, não leve a mal, mas prefiro o café brasileiro sem predições, kkkkkkk

    1. cathvale diz:

      Ahhhh, minha sogra preferida, tá com medo do que o café vai revelar? Te digo “você terá uma nora alta, simpática e muito simples” rs!
      Beijos e saudades!

  5. Leide diz:

    Bom dia,

    querida amiga, amei sua matéria, pra mim muito ESPECIAL. Gostaria, se possível, ver se você tem o contato da Linda Café. Se você souber, me passe por gentileza. Pra mim a Linda é uma pessoa muito confiável. Desde já, agradeço sua gentil atenção.

    1. cathvale diz:

      Olá Leide!
      Fico feliz que tenha gostado do texto (=
      Infelizmente, o contato que tinha da Linda está realmente desatualizado. Liguei no telefone que está disponível na internet ((61) 3273-5767) mas este número consta como inexistente. Escrevi para o “Apontador online” e vamos ver se eles descobrem. Faz tempo também que não passo lá pela quadra (CLN 410 Bl a, Loja 56 ), você já tentou ir lá recentemente?
      Abrs!

      1. Luciana diz:

        Olá! Pesquisando sobre cafeomancia achei o seu blog. Eu tenho o telefone celular da Linda atualizado, caso alguém queira é só me mandar um e-mail (lmerces@hotmail.com) pedindo. Eu fui recentemente e é incrível a leitura. Gostei muito. Abraço, Luciana.

      2. cathvale diz:

        Que legal, Luciana! Faz anos que fui nela e perdi o contato. Até eu vou lhe mandar uma msg 😉 Abrs!

  6. sheyla diz:

    Olá, bom dia! Tenho muita vontade em conhecer a leitura na borra de café. Será que vc conhece algu´me que sabe ler?Obrigada

    1. cathvale diz:

      Oi Sheyla! Conhecia uma pessa em Brasília, mas não consigo mais contato com ela :/ Você é da onde? Abraços!

  7. sidney savine diz:

    Ola…onde eu consigo um ibrik em são paulo?

    1. cathvale diz:

      Em SP você deve conseguir em lojas de artigos árabes.No mercado livre, vira e mexe tem: http://lista.mercadolivre.com.br/cafeteira-arabe-antiga-veja-as
      Espero ter ajudado (=

      1. sidney savine diz:

        Bom dia.

        Agradeço a presteza em informar-me.

        Precisando de algo e estando ao meu alcance, estarei as ordens.

        Abraços,

        Sidney

  8. sidney savine diz:

    Bom dia.

    Agradeço a presteza em informar-me.

    Precisando de algo e estando ao meu alcance, estarei as ordens.

    Abraços,

    Sidney

    1. cathvale diz:

      Imagina, Sidney! Desculpa por não ter respondido com mais agilidade. Espero ter ajudado (=

  9. Denise diz:

    Oi quem le~, vc te, o telefone? abs

    1. cathvale diz:

      Oi quem pergunta 😉
      Eu tenho esse telefone: (61) 3273-5767, mas a Luciana, que comentou aqui também, disse que tem o telfone dela atualizado e ofereceu o e-mail dela lmerces@hotmail.com) caso você queira o telefone. Assim, tente esse que indiquei e se não funcionar, e-mail pra Luciana 😉
      Boa sorte na leitura 😉

      1. Cris diz:

        Contato da Linda 8138-6273

      2. cathvale diz:

        Obrigada!!!

  10. didi diz:

    Pois eu gosto de tudo o que é café! Mas sei que por detrás de muito grão está a exploração dos mais fracos 😦
    Já provei esse em Samos, mas na altura ninguém me leu as borras (devia dar também qualquer coisa como “paciência”!).
    Os mais idosos, aqui em Portugal, ainda hoje usam uma técnica semelhante, também com moagem fina, mas só de cereais. Em adolescente, também cheguei a fazer, mas a partir de certa altura, descobri as potencialidades da cafeína e deixei essa mistura! Deixa-se a espuma levantar, ou seja, levantar fervura, mas mexe-se um pouco, para não verter! Antes de servir, deixa-se a borra assentar (aqui dizemos assim). É muito bom para misturar com leite e não faz mal a ninguém!

    1. cathvale diz:

      Pois é, Didi (Dina), a indústria alimentícia tem sombras muito negras… 😦
      Gostei do relato sobre a forma que os antigos fazem café pelas bandas daí e, olha, acho que assentar é a forma correta 😉
      Bjs!

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