Pudim de Porto. Porto Vintage. E a saga de um pudim que tinha tudo para dar errado.

Esse é um post longo que relata alguns desastres na cozinha, que podem ser vistos como dicas para quem quer aprender o que não fazer em um banho-maria ou em um mise en place ou na hora de levar algo para o forno. É um post que pode soar um ode a ignorância de vinho do Porto. É um post que traz uma receita diferente de pudim e uma história de perseverança para agradar a um aniversariante.

O pudim de aniversário para o marido. Dá pra ver que a parte de trás é menor?! Ah, dá não, né?!
O pudim de aniversário para o marido. Dá pra ver que a parte de trás é menor?! Ah, dá não, né?!

Tonho, o marido, resolveu pedir de aniversário um pudim de vinho do porto e para me deixar mais atiçada, ainda me enviou duas receitas do referido pudim. Uma receita pedia 17 ovos, sim, dezessete! E a outra, 19! Olha, todo mundo tem seus traumas na cozinha, eu tenho vários. Um deles é pudim. Quanta ironia: o nome do nosso cachorro é Pudim, o doce favorito do Tonho é pudim e é justamente uma das coisas que não sei fazer.

Não posso acreditar que sou a única amante da cozinha que enfrenta sérios problemas na feitura de um pudim. Mas estava determina a mudar minha sorte. No final até que deu certo e compartilho a receita e umas dicas aqui. O diacho foi o processo, um árduo aprendizado.

Se der preguiça de ler o post até o final, fica o resumo:

  • Nem todo vinho deve ser usado para cozinhar. Nada de vinhos baratos demais, mas também, nada de vinhos que custem mais de 200 Reais uma garrafa.
  • Prepare sempre com antecedência o seu mise en place – ou seja, deixe os ingredientes que for precisar separados. Isso evita que você precise sair no meio da receita para comprar algo.
  • Cozinhe com tempo para cozinhar. Cada comida requer um tempo de cozimento e isso pode mudar de forno para forno.
  • Ah sim, e sair de casa e deixar o forno ligado não é uma boa ideia! Mesmo que você deixe a porta aberta e um recado no Facebook. (não repita isso em casa!)
  • Banho-maria não deve ser confundindo com banho no pudim! É um refratário maior, com uns dois dedinhos de água e a forma dentro. A forma não precisa ficar boiando.
  • Antes de desenformar o pudim, deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos umas 3 ou 4 horas. Faz toda a diferença!

O vinho do porto

Tonho já era chegado à um bom vinho do Porto. Eu sou ainda aprendiz. Na última viagem à Portugal aprendi um pouco mais. Essas coisas que a gente pode ler no Wikipédia eu ouvi ao vivo.

O Vale do Douro, às margens do rio Douro, onde brotam as uvinhas para preparar o vinho do Porto. É só lá!!! Ah, foto do Tonho (=
O Vale do Douro, às margens do rio Douro, onde brotam as uvinhas para preparar o vinho do Porto. É só lá!!! Ah, foto do Tonho (=

Aprendi que a região das uvas do vinho do Porto é Vale do Douro e não D´ouro. Aprendi que é um vinho naturalmente doce e ouvi, nas vinícolas que visitamos, que descobriram o vinho em uma das ‘viagens’ do vinho, de Portugal à Inglaterra. Ah, e que na cidade do Porto é onde ficam as distintas adegas, a maioria “importada”, que envelhecem e vendem/ exportam seus vinhos (importadas porque não são portuguesas). Entendi finalmente que a uva para o Porto só dá naquela região por conta de uma combinação entre o clima e o solo. Aprendi tudo isso e até mesmo que existem três tipos de vinhos do Porto: o branco, o ruby e o tawny.

O diacho é que assim como aprendi, teve coisa que eu esqueci. Esqueci por exemplo que uma das garrafas de vinho que o Tonho comprou era de um Porto mais fino, mais especial, logo, menos indicado para preparar um pudim. A tal garrafa Quinta do Panascal Vintage 2004, da vinícola Fonseca era um chamego do Tonho e quase tornou a agradável surpresa do pudim, em uma desagradável aventura gastronômica. Ops!

A receita final

Já disse que uma receita com granja de ovos não é indicada pra mim? Pois então, não é! Fico imaginando aquele cheiro de ovos colado e costurado ao doce. Dá embrulho só de pensar.

Para solucionar isso, recorri ao “googloráculo” e finalmente, a uma fonte mais fiel: a Kátia Najara, do blog Pitéu. Ela foi um amor. Me respondeu com prontidão e me enviou uma receita que funcionou muito bem. Aliás, Kátia, mais uma vez, um “muito obrigada”. Há de se passar meses e vou seguir agradecendo.

A receita é simples e está lá no final. O que quase me deixou sem pudim foram meus atropelos.

Os atropelos

Tudo planejado, tudo pronto. Faltavam 3 horas para o Tonho chegar de viagem do Zimbábue (lá na África), não tinha como errar. Até que percebi que havia perdido as laranjas que cedo havia comprado na Ceasa. Corri no mercado e logo voltei. Liguei o forno e então percebi que não tinha leite condensado. Voei no mercado e providenciei outras latas. As anteriores, nunca mais vi!

Faltavam menos de 2 horas para o aniversariante chegar de viagem. Já nervosa, e sem paciência comigo mesma, consegui derramar o suco de laranja no chão. Suco que eu mesma espremi! Mais nervosa, virei a primeira dose de vinho do Porto.

Uma pausa para tirar uma foto dos meus atropelos me ajudou a rir da situação. Porque no fundo, eu tava era com raiva, humpf!
Uma pausa para tirar uma foto dos meus atropelos me ajudou a rir da situação. Porque no fundo, eu tava era com raiva, humpf!

Céus, a calda! A água era pra ser quente, numa quantidade que desconhecia. Calda aguada demais, taquei açúcar mascavo dentro. E meia dose de vinho e a outra metade pra mim. Minha 2a meia dose, aff!

Como errei a primeira medida e acabei tendo que colocar mais açúcar, ficou muita calda. Quer saber, no final foi melhor :) Ah sim, e derreter direto na forma requer um jeitinho para segurar a danada da forma que insiste em esquentar por completo ;)
Como errei a primeira medida e acabei tendo que colocar mais açúcar, ficou muita calda. Quer saber, no final foi melhor 🙂 Ah sim, e derreter direto na forma requer um jeitinho para segurar a danada da forma que insiste em esquentar por completo 😉

Menos de uma hora e meia para o marido chegar. Tinha certeza de que ia dar tempo, afinal só precisava assar. Para o banho-maria, coloquei água em uma panela e larguei a forma com a massa do pudim lá dentro. A forma ficou boiando e não tinha como retirá-la pois estava muito rente. Paciência. Limpei tudo na cozinha – o chão, a pia, o fogão, tava tudo melado. E corri para me arrumar. Antes ia virar uma terceira dose, mas resolvi chupar a metade da laranja que sobrou, ignorando o fato de ser alérgica. Nada demais, só uma coceirinha ao redor dos lábios. Banho!

Achei que esse tanto de líquido não fosse nunca ficar durinho. Mas deu certo!
Achei que esse tanto de líquido não fosse nunca ficar durinho. Mas deu certo!

Banho tomado, pudim assando há mais de uma hora, tinha certeza de que estaria pronto. Quando abri o forno e puxei a panela, a forma tremeu e “splash”, caiu água no meu pudim!!!! Corri e peguei papel-toalha para enxugar o pudim. Sim, eu literalmente sequei o pudim dentro do forno, e fechei de novo para ele terminar de assar.

Mais meia hora e o Tonho liga: “estás chegando (no aeroporto)?” Eu olhava para o pudim e sabia que ele não estaria pronto nos próximo 20 minutos. Só me restava uma coisa, pegar o Pudim, dessa vez o cachorro, e levá-lo para o aeroporto comigo e deixar um aviso no Facebook para os amigos, dizendo que tinha saído e deixado o forno aceso. Afinal, o pudim precisava terminar de assar e eu precisava buscar o Tonho no aeroporto.

Deu certo. Duas horas e meia depois o pudim assou. Fiz o tal do teste o palito, mas ele nunca passou (não sei se foi por conta da água que derramou nele). Com muita dificuldade consegui tirar a forma de dentro da panela e percebi que o pudim havia ficado meio inclinado, ou torto mesmo. Aprendi que banho-maria definitivamente não deve ser feito assim, mas sim com um refratário maior, com espaço para manusear a forma e, sem necessidade de deixar a forma boiando – é uma forma, não um barquinho!

Visto de cima. Coloquei a velinha do lado mais alto para não chamar muita atenção para o lado menor. Mas diga ai, ficou bacana!
Visto de cima. Coloquei a velinha do lado mais alto para não chamar muita atenção para o lado menor. Mas diga ai, ficou bacana!

O resultado

Um aniversariante feliz e um pudim delicioso – tortinho, mas gostoso! O chato foi quando o Tonho descobriu qual o vinho do Porto eu tinha usado. Lembra que eu disse lá no começo que esqueci que uma das garrafas era especial demais para cozinhar – e pior, para virar em dose?!

Posso dizer que foi o pudim mais “caro” que já fiz. Pelo menos, volto a dizer, estava delicioso. Agora aprendi, garrafa de Quinta do Panascal Vintage 2004, nunca mais uso para esse fim, rs! E acho que o Tonho aprendeu: pedir um pudim de aniversário pode ser desastroso demais, rá!

Fica a receita para você que se garante no pudim ou para você que curte um vinho do Porto. Espero que gostem tanto quanto a gente gostou (=

Olha ai ele por dentro. Dá pra sentir que ele ficou bem cremoso e lisinho. Diliça ;) E o gostinho suave de Porto, hummm...
Olha ai ele por dentro. Dá pra sentir que ele ficou bem cremoso e lisinho. Diliça 😉 E o gostinho suave de Porto, hummm…

PUDIM DE VINHO DO PORTO

UTENSÍLIOS

  • Abridor de latas
  • Faca (para cortar as laranjas, se tiver um espremedor manual é bom)
  • Liquidificador
  • Tacinha pra cachaça (dose)
  • Forma para pudim (ou uma forma com furo no meio)
  • Pirex ou forma maior para preparar o banho-maria
  • Papel alumínio

INGREDIENTES

Para calda:

  • Açúcar (um copo)
  • Água fervente (meio copo)
  • Anis estrelado (duas estrelinhas)
  • Vinho do Porto (meio cálice)

Pudim:

  • 1 lata de leite condensado (395 gr)
  • 1 lata de creme de leite (300 gr)
  • 1 medida de lata com: um cálice de vinho do Porto, completada com suco de laranja da fruta espremida (sem adição de água)
  • 3 ovos
  • 1 colher de sopa de amido de milho (maisena) para ficar lisinho

PREPARO

Calda

  • Coloque o açúcar na forma e leve-a direto ao fogo baixo para derreter, depois que derreter coloque o meio copo de água quente (cuidado que vai espirrar)
  • Coloque o anis e o Porto
  • Mexa até que vire um caramelo

Pudim

  • Todos os ingredientes no liquidificador
  • Bata bem, por pelo menos 5 minutos
  • Coloque na forma caramelizada
  • Banho-maria para assar, em forno baixo (180 graus): num refratário menor coloque água, dentro a forma (não deixe a forma ficar boiando, vai por mim, isso não é boa ideia!). Cubra com papel alumínio pelo menos na primeira hora, depois retire. Tempo aproximado de cozimento: 1h e meia.

Desenformar: de preferência deixe esfriar e depois, leve por pelo menos umas 3 a 4 horas a geladeira antes de desenformar.

4 Comments Add yours

  1. neyla diz:

    Amiga, saudade de vc… parece que a gente que mora em brasília precisa se acostumar com chegadas e partidas… bem, pensando pelo lado bom, ao menos tem as chegadas, né?
    espero que esteja tudo correndo bem em belcity. avise quando vier por aqui… bjim! nê

    1. cathvale diz:

      Pois é! E pensar que estu de passagem por Brasília. Mas não se preocupe que vire e mexe vão surgir histórias por aqui pelo blog e em breve, histórias paraenses 😉
      Bjs!!!

  2. Hare Cath, vou até tomar um suquinho de laranja em tua homenagem…
    Carca, a saga do pudim… mas olha, eu que não sou chegada em pudim, no máximo um brigadeirão, fiquei com água na boca, viu?

    Beijos

    1. cathvale diz:

      Hehehehe, olha, deu trabalho, mas ficou realmente diliça 😉
      Bjs!

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