Pedido de leitora: receita de “Gingerbread” e uma pitada de curiosidades. É Natal!

Tem receitas que combinam muito com uma época do ano e outras que vem cheia de boas lembranças e muitas histórias. Gingerbread cookies, ou simplesmente Biscoito de Gengibre, ou ainda, o Boneco/ Homem de Biscoito de Gengibre tem várias histórias e sabores por trás de cada mordida. Quando a leitora Mali pediu para que eu traduzisse a receita que utilizo para fazer esse biscoito, me inspirei para traduzir um pouco mais que medidas e porções. Espero conseguir traduzir um pouco da magia e alegria que está por trás desse homenzinho de temperos.Gingerbread_008

A história do biscoito de gengibre antecede o boneco. O gengibre em si veio da Ásia, assim como muitos outros temperos também. Acredita-se que a massa de gingerbread (pronuncia-se “djinger-bréd”) foi fruto da Europa Medieval. Segundo artigo no Wikipedia, foi em 992, que o monge Gregory de Nicopolis levou da Armênia para a França a massa básica de gingerbread. O artigo em inglês é bem rico em detalhes, já o artigo em português, infelizmente é muito superficial. Bom, o monge armênio ficou sete anos pela França e  ensinou a vários cristãos franceses a fazerem uma massa a base de gengibre e melado ou mel, ao invés de usar somente açúcar. Daquela base brotariam várias outras misturas. Hoje, existem massas de gingerbread mais macias e fofinhas e outras mais crocantes. Em vários países se encontram receitas distintas, variações da apresentação e até mesmo diferentes épocas para se apreciar esse biscoito/bolo doce.Gingerbread_001

O termo gingerbread também assume conotações distintas. Durante a época medieval era principalmente associado a gengibre preservado, que do latin se dizia zingebar, que no francês antigo se dizia gingerbras. Foi mesmo a partir do século XV que o termo passou a ser mais associado a massa ensinada lá no início, pelo monge.

Na Alemanha, por exemplo, chama-se principalmente de Lebkuchen, que são muito comuns durante feiras (tipo parque de diversão tradicionais), em formato de coração decorado com dizeres, feitos com confeito de açúcar. Na Oktoberfest é também muito comum! Esses são bem durinhos. Há outros mais parecidos com o nosso pão-de-mel brasileiro, que aliás, é uma variação da massa também! E diz-se que foi pela Alemanha que surgiu a ideia de fazer casinhas com a massa de gingerbread, quem sabe inspirados na história de João e Maria (original: Hänsel und Gretel, dos Irmãos Grim).

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Na Inglaterra, até Shakspeare se rendeu ao biscoitos e em uma peça sua, Trabalhos de Amores Perdidos (Love’s Labour’s Lost), traz uma fala que menciona a popularidade dessa iguaria: “An I had but one penny in the world, thou shouldst have it to buy gingerbread”. Algo como: “e se eu tivesse somente um centavo no mundo, eu deveria tê-lo para comprar gingerbread”.

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Na Polônia, desde o século XVI há uma fábrica de Pierniki, onde hoje funciona o Muzeum Pernika, ou simplesmente o Museu do Gingerbread. Lá você aprende a fazer uma massa seguindo uma receita secular, de 500 anos atrás! Forno a lenha, formas antigas, um verdadeiro passeio na história. Aliás, se alguém já foi lá, conta pra gente em mais detalhes, pois eu só conheço virtualmente 🙂

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No Brasil, chamamos mesmo de pão-de-mel, mas o nosso se parece mais com um bolinho, mais fofo e coberto com chocolate. Seja qual for sua receita favorita, sua história favorita, o gingerbread tem várias origens e formatos. Agora, e o boneco, de onde veio?

O famoso formato de boneco de gengibre: conto infantil e tradição natalina

Uma história mais conhecida por ter iniciado no século XIX, fala de um biscoito de gengibre que ganhou vida ao sair do forno e começou a correr. O senhor e a senhora que o fizeram, corriam e não conseguiam pegá-lo! Na história publicada em maio de 1875, St. Nicholas Magazine, uma raposa vermelha conseguiu pegar o Boneco e ele dizia “oh céus, 1/4 de mim se foi! Oh, metade de mim se foi! 1/3 de mim se foi! Me fui por inteiro!” e ele nunca mais falou de novo!

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Com o passar dos anos várias versões e forma de contar a história foram sendo inventadas e adaptadas. Há muitos livros sobre a história infantil do Boneco de Gengibre. E assim, o pequeno boneco foi se popularizando cada vez mais e mantém sua fama ainda hoje. Aqui, uma musiquinha sobre o Boneco de Gengibre:

Para mim, gingerbread tem sabor de Alemanha, tem sabor de Estados Unidos, tem cara de criança, de alegria, de datas especiais! A história de associar o boneco com o Natal, segundo minhas pesquisas, começou há mais de 100 anos, na região de Lancaster, quando crianças alemãs na Pensilvânia, passaram a cortar biscoitos em formato de gente, decorados com pasta de açúcar, e colocavam nas janelas para alegrar as paisagens de neve. Isso está em detalhes no livro: 300 Years of Kitchen Collectibles, Linda Campbell Franklin.

Uma curiosidade a mais: o maior biscoito de gengibre já feito no mundo tinha mais de 18 metros! Foi feito no Texas em 2013. Se quiser ver, tem até vídeo no link aqui!

E agora, finalmente, a receita da Stephanie Jaworski, do Joy of Baking, um dos meus blogs favoritos para receitas doces.

Beijos de gingerbread e FELIZ NATAL!!!

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#Gingerbread Man – Biscoito de Gengibre

#utensílios:

  • Batedeira (mas se preferir, dá para fazer à mão também)
  • Colher
  • Balança culinária ou copos medidores
  • Colheres medidoras
  • Plástico para envolver as massas
  • Forminha de Gingerbread (tem diversos modelos também!, até nas Americanas tem vários! – perdi minha forma há alguns anos e desde então não comprei outra. Esse ano improvisei com corações e um boneco menorzinho, que ganhei de presente, com um braço que fica tipo alça para pendurar na xícara de café – obrigada, Lau!)

#ingredientes:

  • 3 xícaras (390 g) de trigo refinado
  • 1/2 col/ chá de sal
  • 3/4 col/chá de bicarbonato de sódio
  • 2 col/chá de gengibre em pó
  • 1 col/chá de canela em pó
  • 1/4 col/chá de noz moscada em pó (eu ralo a minha na hora)
  • 1/4 col/chá de cravo em pó (eu bato os meus no pilão na hora)
  • 1/2 xícara (113g) de manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 1/2 xícara (100g) de açúcar branco refinado
  • 1 ovo grande
  • 2/3 xícara (160ml) de melado de cana (substituir por mel, xarope de ácer – maple syrup – ou mesmo xarope de milho irá alterar o sabor e a cor). Dica: para evitar que o melado grude na xícara, unte com óleo.

#Preparo:

  1. Em uma vasilha grande junte: trigo, sal, bicarbonato de sódio e todos os temperos.
  2. Na batedeira, em velocidade média, bata: manteiga com açúcar, até ficar cremoso. Se parecer que está desandando, não se assuste. Acrescente o ovo e o melado. Misture bem.
  3. Depois, aos poucos acrescente a mistura da farinha. Não misture muito, só o suficiente para incorporar todos os ingredientes.
  4. Desligue a batedeira coloque a massa sobre uma superfície polvilhada com trigo, para evitar que a massa grude. Faça uma bola e divida em duas metades. Envolva cada uma em um plástico e leve a geladeira por pelo menos duas horas. Como aqui no Brasil é mais quente mesmo, o ideal é deixar sempre da noite para o dia, que é o que a Stephanie sugere.
  5. Após a massa ter resfriado bem: polvilhe bastante uma superfície para abrir a massa.
  6. Pré-aqueça o forno a 180ºC, prepare uma forma. Abra a massa sempre girando-a, para evitar que grude. Abra com o rolo ou mesmo com as mãos, entre de 0,5 cm e 0,7 cm de espessura e corte com o cortador de sua preferência.
  7. Coloque na assadeira com uma distância de pelo menos 2,5 cm de distância, para que eles não grudem. Asse por cerca de 10 minutos (o tempo vai variar de acordo com o tamanho dos moldes que você utilizar).
  8. Retire do forno, deixe-os resfriando por mais ou menos 1 minutinho na assadeira, depois transfira para uma grelha para que eles não fique úmidos.

Se quiser decorar, há várias opções, eu gosto de usar o “royal icing”, que em português é glacê real. Não gosto de usar muito corante, aliás, nem mesmo muito açúcar, então prefiro fazer uma porção pequena, somente para contornar, que deve ser mais durinha. A receita é simples: uma clara de ovo, uma colher de chá de suco de limão (prefiro usar o siciliano, que é o normalmente é usado lá fora), e cerca de 2 xícaras (230g) de açúcar de confeiteiro. Bata primeiro a clara com o suco de limão e um pouco do açúcar, usei a batedeira com a espátula para clara em neve. Use a velocidade baixa, e aos poucos vá acrescentando o açúcar de confeiteiro peneirado, para evitar que crie bolotinhas. A consistência ideal ficará semelhante a um merengue, denso. Se ficar muito grosso, acrescente um pouco de água, se estiver muito líquido, acrescente mais açúcar. O glacê deve ser utilizado imediatamente, pois ele resseca rápido. Para otimizar o uso do saco de confeiteiro, procure utilizar um de plástico (pode até mesmo ser um saquinho, tipo zip-loc, com um furinho na ponta).

Dicas para armazenar esse tipo de biscoito: eles duram até um mês se bem guardados em vasilhas fechadas. Não misture este tipo de biscoito com outros, pois eles podem ficar mais moles e transferir seu aroma de especiarias para outros tipos de biscoitos.

3 Comments Add yours

  1. Mali diz:

    Uauuuu! Além da receita você nos conta toda essa história! Amei! Muito obrigada! Beijão

  2. marcia diz:

    Um mês… Eles decorados?

    Para comercializar como me orienta fazer?

    1. cathvale diz:

      Um mês é o que os livros indicam e já decorado. É muito açúcar! Se você quer comercializar como produtora artesanal, deixe claro a data de confecção. Outra coisa que pode fazer é preparar a massa com antecedência e congelar. Asse somente quando for entregar as encomendas. Espero que isso ajude. Como não faço para fins comerciais, meu conhecimento é restrito.

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