Souvenir bom, é souvenir que põe mesa: alheiras e histórias de Portugal

Adoro comer, cozinhar e viajar. Juntar as três coisas então, melhor ainda. Por isso que, sempre que possível, arrumo um curso de culinária por onde ando. Além dos cursos, busco também souvenirs que sejam relacionados com cozinha: temperos, utensílios, livros de culinária, coisinhas que, normalmente, não são feitas para durar para sempre, mas que nos levam de volta a uma certa viagem quando a utilizamos. Já trouxe trufa de Paris, salsa Lizano de San José (Costa Rica), absinto de Praga, cafeteira de Istambul, cuscuzeira de Fortaleza, e por aí vai! Entre todas essas, as lembranças de Portugal no entanto são o melhor quebra-cabeça de souvenirs que já tive. Com uma combinação única de presentinhos que ganhei, com coisinhas que compramos e com comidas que aqui achamos, meu povo, nossa sala já foi transformada algumas vezes em uma pequena taverna portuguesa. E se você quer fazer um menu bem português em casa, sem repetir o bom e velho bacalhau, ou quer dicas de coisas legais para cozinha diretamente de Portugal, chegue mais, que você vai gostar!

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Já havia escutado falar de alheira antes, mas foi somente durante uma viagem a Portugal em 2011, que passei a conhecê-la mais de perto. Alheira é um tipo de linguiça recheada de história antiga, com um passado que mistura lenda com fatos e, judeus com inquisição e cristãos novos. Aquele tipo de comida da qual você não precisa provar para saber que é importante para o local. Claro que digo isso para me resguardar, pois alheira tem carne, logo, não provei durante a viagem. Ainda assim, acompanhei a todos que comeram e me deliciei com os acompanhamentos.

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Se joga na história: alheia de antes e as inovadoras

A origem da alheira remota ao passado dos novos cristãos em Portugal, os judeus recém-convertidos, que mudaram seus nomes e incorporaram alguns hábitos. Isso lá por volta do século XV, em Trás-os-Montes (região onde está Mirandela, guarde este nome). Naquela época era comum que cristãos pendurassem linguiças em suas varandas, normalmente feitas de carne suína. Judeus não comem porco e não tinha o hábito de pendurar linguiça logo, suas casas eram facilmente identificadas. Para ajudar no disfarce e não serem apontados como não-cristãos, os cristãos novos passaram a fazer linguiça também. Mas uma linguiça diferente.

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Se isso realmente for verdade, é como se a criação das alheiras se devesse em parte a inquisição. Os judeus, cristãos novos criaram uma versão feita com carne de caça, como coelho, faisão, frango e por aí vai, misturada com pão, muito alho e coloral, para ajudar na cor. Em inglês, alheiras são também chamadas de “linguiça judaica”. Há sempre fragmentos fantasiosos nessas origens, mas é a história mais vendida e, não vou mentir, é também a história da qual mais gosto.

As alheiras de Mirandela são muito famosas e consideradas por alguns como as originais. A marca é famosa, possui selo de qualidade e pode ser encontrada também em mercados em diferentes regiões de Portugal, ainda que sua fama maior e tradição, pertença mais ao Norte (foto acima é de uma alheira de Mirandela que veio de Portugal). Aqui compartilho dois vídeos sobre o preparo e um pouco mais de sua história: esse fala mais sobre a Alheira de Mirandela e aqui sobre outros tantos tipos, inclusive as “inovadoras”.

Hoje em dia há muitos tipo alheiras, com variados tipos de carne e até mesmo, alheiras com carne suína. Além disso, surgem as  inovadoras, que são as alheiras com recheios diferentes, como de bacalhau e, finalmente, uma versão vegetariana (foto do prato feito, com batatas, ovo eesparregado, lá em cima).

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Onde comprar no Brasil? E, como preparar e servir?

Alguns anos depois da nossa viagem, recebemos diretamente de Portugal alheiras de Miradela e uma única inovadora, vegetariana, todinha para mim. Foi somente então quando provei esse enchido (foto do prato montado). Arrumei a mesa com meus outros tantos souvenirs de Portugal, reunimos os amigos e tivemos um almoço que nos fez atravessar o Atlântico, sem sair da nossa sala.

Porém, você não precisa esperar alguém trazer uma alheira de Portugal. Ainda que não tenha encontrado as inovadoras no Brasil, quem sabe em breve, há no mercado nacional as misturadas com carne de porco ou somente de ave e são facilmente encontradas, por exemplo, no Mercado Municipal de São Paulo (foto acima e abaixo).

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Quando vamos em São Paulo a passeio, uma passadinha pelo Mercado é praticamente obrigatória. E numa dessas vezes o Tonho resolveu comprar algumas alheiras. Veja aí na foto acima. Trouxe sem grande problema, não fosse o fortíssimo cheiro de alho que por vezes teimava em exalar e perfumar o vôo. Alguém mais por aí viaja também e traz comida?

Agora que já sabe onde comprar alheiras, fica a pergunta: como servir? É simples! Há quem as frite, há quem as prefira assadas. Nós somos do time das assadas. Faça uns furinhos, leve para assar no forno médio pré-aquecido, vire de lado após uns 15 minutos e deixe por mais uns 10 a 15, na assadeira ou na grelha, com uma aparador de gordura por baixo. A textura quando firme, indica que já está no ponto. O forte aroma defumado pela casa, também evidencia que a alheira será traçada em breve. Sem muito segredo.

Alheira_002Os acompanhamentos mais tradicionais são também clássicos da cozinha, capaz de salvar qualquer preparo: batata frita e ovo frito. De quebra, um esparregado. Esparregado é um tipo de creme verde, comumente feito de espinafre ou grelos. Para quem é do norte/ nordeste, segure o risinho. Grelos não são um tipo de folha/ folhosa, mas sim é como se chama em Portugal um broto de folhas verde, tipo nabo, nabiça, couve ou mesmo espinafre. É também muito comum na Galicia, na Espanha.

Alheira_012Para quem está no Brasil e não quer se arriscar ligando para os cantos para saber se tem grelos (a história da Neide é ótima!), vale usar o espinafre sem medo! Faz-se a base para engrossa do molho com manteiga derretida e trigo (técnica da culinária francesa, chamada de roux – pronuncia-se “rú”, em português), depois acrescenta o espinafre já amolecido e temperado. Tem várias receitas pela internet, o esparregado do nosso almoço foi feito pela minha amiga, que por sua vez aprendeu com a sogra portuguesa. Um dia pego a receita!

Pronto, banquete português sem bacalhau!

Além das alheiras

Para finalizar nossos souvenirs e nossa mesa, deixo a dica das toalhas portuguesas mais lindinhas, baratas e coloridas. Cheia de frase em um português mais campino. São super baratas, vendidas por todos os cantos e em vários tamanhos. Já vi até sacola com a estaparia. Além disso, me apaixonei pelo presente que ganhei da minha amiga portuguesa: cerâmicas tradicionais, em barro vermelho vidrado (foto com as azeitonas, mais pra cima). Há ótima variedade na Feira de Barcelos, ou direto com produtores, por exemplo, com Cerâmica Barbosa. Junte isso tudo com um vinho português de sua preferência, ou um bom Porto Tônica (foto acima) e já terás uma comida tradicional na sua casa!

Alheira_011Feche o banquete com uma boa ginjinha. Vai ser giro, vai por mim!

Beijos de alheiras!

Aqui, para encerrar com uma foto: a gente no Vale do Douro.

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2 Comments Add yours

  1. Mandei o link para meu amigo português Luis Gomes, um peregrino que adora cozinhar.

    1. cathvale diz:

      Espero que ele goste 😉

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